sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Da Indiferença à Solidariedade

DA INDIFERENÇA À SOLIDARIEDADE

(Texto original de Alberto Bittencourt)

Fria manhã de inverno. Como de hábito, saio de casa às seis para curtir uma corrida. Nada de sol no horizonte, nada de azul no céu encoberto de hoje.

A longa avenida já está bem movimentada. As pessoas se exercitam antes das atividades do dia-a-dia. O CRI – Clube dos Rapazes Indomáveis, média de idade 80 anos, já está a postos. A turma dos safenados caminha em alegres bate-papos, aos grupos de dois ou três. Os marombeiros se exercitam em aparelhos afixados pela prefeitura junto à pista. Há os que correm, há os que andam, há os que marcham aceleradamente, há os que apenas contemplam a paisagem, todos adeptos do estilo de vida saudável.

Enquanto corro, vou meditando. Tento completar os dez quilômetros perfazendo meia hora em cada sentido.

Na ida, vejo um corpo inanimado, encolhido ao pé de um latão de lixo. Um mendigo jaz inerte, algumas latas espalhadas no chão. Deitado, com a cabeça apoiada sobre patas dianteiras do pequeno cão vira-latas que o olha fixamente. Tem o semblante de sofrimento não sei se pelo dono ou por ele mesmo.

Todos os adeptos da corrida passam sem tomar conhecimento daquele ser. Quem seria? Há quanto tempo estaria ali? A indiferença é total. Pode até esta morto, ou quase.

Ninguém tem tempo para parar, atravessam a rua, indiferentes ao próximo. Bem..., todos temos nossas metas a cumprir. Nossos caminhos de hoje estão traçados. Os encontros, a família, o trabalho, a escola, é tudo tão importante, não há espaços para imprevistos. Sobretudo quando o imprevisto é um pobre qualquer, que não nos diz respeito. Não é conosco. Para isso existem as autoridades.

Chega um jovem, se agacha tentando falar com ele. Me aproximo. O jovem lhe pergunta com doçura: Senhor, o que tem? Posso ajuda-lo? Após alguns instantes, o corpo murmura, sem abrir os olhos: Não tenho forças, não consigo comer, sinto dores. O homem exala cheiro de cachaça. Penso no efeito devastador do álcool no estômago vazio. Outras pessoas se aproximam. Um pequeno grupo se forma em torno do mendigo. Alguém diz: precisamos leva-lo a um hospital. Outro: chamem a polícia. Um dos marombistas, de seu celular, chama o Serviço de Resgate. Enquanto não chega, alguém lhe oferece um cigarro. O jovem conversa com ele.

A ambulância chega em vinte minutos. O pequeno vira-latas parece entender. Late, balança a cauda, se agita, embarca junto. O grupo se dispersa.

Da indiferença à solidariedade, assim é a natureza humana. Basta uma pequena iniciativa para que as pessoas despertem.

Continuo a corrida, sinto-me mais leve agora. Acredito no ser humano. Acredito que passaremos por esse mundo uma única vez. Assim, todas as boas ações que possamos praticar e todas as ações concretas que possamos dispensar a qualquer ser, não devem ser adiadas. Devemos aproveitar este momento, pois nunca mais voltaremos a passar por este caminho.



F I M


(Adaptação: Guaraci Oliveira)





Guaraci Oliveira, é Consultor Jurídico-Organizacional

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